Uma mulher entra no quarto da empregada, encontra uma barata e sai dali sem saber mais quem é. Contada assim, a história cabe em uma linha. Só que A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, é um dos romances mais marcantes da literatura brasileira e uma das novidades da lista da FUVEST 2027. Este resumo mostra o que acontece, por que o livro parece tão difícil e o que observar para a 2ª fase.
Livro: A paixão segundo G. H. (1964)
Autora: Clarice Lispector
Gênero: Romance introspectivo, narrado em primeira pessoa
Faixa indicada: A partir de 15 anos (ensino médio)
Temas sensíveis: nojo, crise de identidade, lembrança de um aborto, desigualdade de classe e racismo
Atenção: este resumo contém spoilers, inclusive do final.
Contexto: por que esse livro é tão comentado
Clarice Lispector (1920–1977) nasceu na Ucrânia, cresceu no Brasil e publicou este romance em 1964. Ele quase não tem ação externa: quase tudo se passa dentro da cabeça da narradora, em um único cômodo. Antes mesmo da história, um aviso da autora diz que ficaria contente se o livro fosse lido por pessoas “de alma já formada”. Ou seja: se a leitura parecer difícil, isso é esperado, e não um defeito seu.
A obra entrou na lista da FUVEST 2027 ao lado de outras oito escritas por mulheres. Veja o quadro completo no nosso guia das obras obrigatórias da FUVEST 2027.
Personagens
- G. H.: a narradora. Mulher de classe alta, que faz esculturas e mora sozinha em uma cobertura no Rio de Janeiro. Só conhecemos as iniciais do seu nome, gravadas nas malas.
- Janair: a empregada que acabou de pedir demissão. Não aparece em cena, mas sua ausência move o livro. G. H. percebe que mal reparava nela.
- A barata: parece estranho chamar de personagem, mas é ela que provoca a crise e ocupa o centro da narrativa.
- O “você” a quem ela fala: G. H. imagina segurar a mão de alguém enquanto conta o que viveu. Esse interlocutor não tem nome e ajuda a narradora a seguir em frente.
Resumo da história
G. H. tenta contar o que lhe aconteceu no dia anterior, sem saber direito como dizer. Naquela manhã, depois do café, ela decide arrumar a casa, começando pelo quarto de empregada. Espera encontrar sujeira e bagunça. Encontra o contrário: um cômodo limpo, seco e muito claro, quase um deserto. Em uma das paredes, Janair deixou um desenho a carvão com um homem, uma mulher e um cachorro. G. H. sente que aquilo pode ser um recado para ela e, pela primeira vez, pensa em como era vista pela mulher que trabalhava na sua casa.
Ao abrir o armário, ela dá de cara com uma barata. O susto vira repulsa, e ela fecha a porta do armário sobre o inseto, que fica esmagado pela metade, ainda vivo, soltando uma massa branca. Em vez de ir embora, G. H. fica ali. Começa a olhar a barata de frente, e esse olhar desmonta tudo o que ela achava que era: a mulher elegante, a vida arrumada, as ideias prontas sobre si mesma.
A partir daí, o livro acompanha um mergulho. G. H. pensa em um homem que amou, lembra de um aborto, recorda proibições da Bíblia sobre animais impuros e chega à sensação de tocar uma vida sem enfeite, que ela chama de neutra, anterior aos nomes e às regras humanas. No auge dessa experiência, ela leva à boca a massa branca da barata. O gesto causa nojo em quem lê, e é pensado para isso, mas no romance funciona como um rito, uma espécie de comunhão ao contrário.
O livro termina sem solução prática: nada muda por fora, e G. H. continua tentando colocar em palavras o que não cabe nelas. O fim é uma frase curta de aceitação e entrega, seguida de travessões que deixam o texto aberto, do mesmo jeito que ele começou.
Não procure a resposta sobre “o que aconteceu” no enredo. A pergunta do livro é outra: o que sobra de uma pessoa quando ela deixa de lado a imagem que faz de si?
Temas para a prova
- Identidade: a perda da “montagem humana”, a imagem social que G. H. construiu. Reparar nessa ideia ajuda em quase toda questão sobre a obra.
- Classe e raça: a relação entre patroa e empregada é central. Janair é uma mulher negra que G. H. quase não enxergava, e o quarto dela fica no próprio apartamento, separado do resto. A FUVEST pode pedir essa leitura social, que nem sempre aparece nos resumos.
- Linguagem: a narradora repete que não consegue dizer o que viveu. O limite das palavras é um dos assuntos do livro.
- Religião ao avesso: o título lembra a Paixão de Cristo “segundo” um evangelista. O animal considerado impuro e o gesto final invertem a ideia de comunhão.
- Forma: fluxo de consciência, ausência quase total de ação, narração que conversa com um “você”. Há ainda um recurso fácil de reconhecer: a última frase de um capítulo se repete no início do seguinte, como se o pensamento não parasse.
Relações com as outras obras da lista
A banca gosta de comparar. Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida, olha para o trabalho feminino e a pobreza a partir de quem vive a dificuldade; aqui, o olhar vem de cima, de quem nunca precisou reparar. Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo, dá voz a mulheres negras, enquanto Janair é justamente quem fica sem voz. Anote essas comparações em uma ficha.
Como estudar
- Leia em trechos curtos. Um capítulo por vez, sem tentar entender tudo de primeira.
- Escreva uma frase por capítulo. No fim, você terá seu próprio mapa do livro.
- Marque três passagens: a chegada ao quarto, o encontro com a barata e o gesto final. São as mais citadas.
- Treine a resposta social: em duas linhas, explique o que Janair representa no romance.
Se ainda não sabe montar uma ficha de leitura, comece por como fazer resenha de livro. Resumo ajuda a revisar, mas não substitui a leitura, sobretudo aqui, onde o jeito de escrever é o que mais importa. As datas das provas estão sempre no site oficial, fuvest.br.
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