Pela primeira vez na história do vestibular da USP, a lista de leituras obrigatórias tem só obras escritas por mulheres. São nove livros de autoras do Brasil, de Portugal e de Moçambique, escritos entre 1853 e 2019. Parece muita coisa, mas dá para organizar. Neste guia você encontra cada obra explicada em linguagem simples, o que observar em cada uma e um plano de estudo para chegar à 2ª fase com segurança.
Vestibular: FUVEST 2027 (ingresso na USP em 2027)
Quantidade de obras: 9
Onde caem: principalmente nas questões de Português e Literatura da 2ª fase
Faixa indicada: ensino médio, a partir de 15 anos
Temas sensíveis: algumas obras tratam de violência contra a mulher, racismo, escravidão e perseguição política
Este guia apresenta cada obra de forma geral, sem contar os finais.
A lista completa da FUVEST 2027
- Opúsculo Humanitário (1853), Nísia Floresta
- Nebulosas (1872), Narcisa Amália
- Memórias de Martha (1899), Julia Lopes de Almeida
- Caminho de pedras (1937), Rachel de Queiroz
- A paixão segundo G. H. (1964), Clarice Lispector
- Geografia (1967), Sophia de Mello Breyner Andresen
- Balada de amor ao vento (1990), Paulina Chiziane
- Canção para ninar menino grande (2018), Conceição Evaristo
- A visão das plantas (2019), Djaimilia Pereira de Almeida
Em relação à lista de 2026, saíram O Cristo Cigano e As meninas e entraram A paixão segundo G. H. e Geografia. Datas de provas e regras podem mudar: confira sempre o Guia de Provas no site oficial, fuvest.br.
Por que essa lista é diferente
A ideia da FUVEST foi colocar no centro autoras que muitas vezes ficaram de fora dos livros didáticos. Isso muda o jeito de estudar: mais do que decorar enredos, a banca costuma perguntar como cada texto mostra a vida das mulheres no seu tempo, quem tem voz na narrativa e como a forma (poema, ensaio, romance, contos) ajuda a construir o sentido. Guarde esse fio condutor, porque ele liga as nove obras.
As obras, uma por uma
1. Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta (1853)
O que é: não é romance, é um ensaio, um conjunto de textos de argumentação. Nísia Floresta, uma das primeiras intelectuais feministas do Brasil, defende que as mulheres tenham acesso a uma educação de verdade, e não só a prendas domésticas.
O que observar: como a autora argumenta (comparações com outros países, críticas à sociedade da época) e a relação entre educação e liberdade. Ótimo texto para questões que pedem interpretação de argumentos.
2. Nebulosas, de Narcisa Amália (1872)
O que é: um livro de poemas do Romantismo. Há poemas líricos, de sentimento e natureza, e também poemas com preocupação social, que olham para a pátria, a liberdade e a injustiça.
O que observar: marcas do Romantismo (subjetividade, natureza, idealização) e o fato de uma mulher ocupar, no século 19, o lugar de poeta pública que fala de política. Treine a leitura de poemas curtos, que costumam aparecer transcritos na prova.
3. Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida (1899)
O que é: um romance curto em primeira pessoa. Martha conta sua infância e juventude ao lado da mãe viúva, vivendo com pouco dinheiro no Rio de Janeiro do fim do século 19, num ambiente de cortiço.
O que observar: a pobreza e o trabalho feminino, o estudo como caminho de mudança de vida e o diálogo com o Realismo e o Naturalismo (o ambiente influenciando as pessoas). Compare com outras obras de cortiço que você já estudou.
4. Caminho de pedras, de Rachel de Queiroz (1937)
O que é: um romance ambientado em Fortaleza, nos anos 1930, que acompanha militantes de esquerda num período de forte repressão política. No centro está uma mulher que rompe com o papel esperado dela no casamento.
O que observar: o Romance de 30 (literatura com preocupação social), a perseguição política da época e o preço que uma mulher paga por fazer escolhas próprias. Se você já leu O Quinze, vai reconhecer o estilo direto da autora.
5. A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector (1964)
O que é: um romance quase sem ação externa. G. H., uma escultora de classe alta, entra no quarto da empregada que acabou de ir embora, encontra uma barata e vive ali uma experiência intensa, que a faz questionar quem ela é.
O que observar: o fluxo de consciência, a narração que conversa com um “você” imaginário, a relação entre patroa e empregada (classe social) e as reflexões sobre identidade. É a leitura mais difícil da lista: leia devagar, em trechos, e anote frases que resumem cada parte.
6. Geografia, de Sophia de Mello Breyner Andresen (1967)
O que é: um livro de poemas da grande poeta portuguesa do século 20. Mar, luz, paisagens, viagens e a busca por uma vida justa e clara aparecem com frequência.
O que observar: as imagens ligadas à natureza e aos lugares (daí o título), a linguagem limpa e precisa e a dimensão ética dos poemas. Como em Nebulosas, treine a análise de poemas curtos.
7. Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane (1990)
O que é: um romance moçambicano, considerado o primeiro publicado por uma mulher em Moçambique. A narradora, Sarnau, conta sua história de amor com Mwando e tudo o que acontece com ela dentro das tradições de casamento da sua comunidade.
O que observar: a poligamia e o lugar da mulher na tradição, a oralidade (o jeito de contar parece uma conversa) e o choque entre costumes locais e influências coloniais. Atenção: há passagens de violência contra a mulher.
8. Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo (2018)
O que é: um romance sobre Fio Jasmim, um homem que passa pela vida de várias mulheres. Quem ganha destaque, porém, são elas: cada uma conta sua história, seus desejos e suas dores.
O que observar: o conceito de escrevivência, criado pela autora para falar da escrita que nasce das vivências de mulheres negras, a crítica ao machismo e as várias vozes narrativas.
9. A visão das plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida (2019)
O que é: uma novela curta sobre Celestino, um velho capitão que, depois de uma vida no tráfico de pessoas escravizadas, volta para sua terra em Portugal e passa os dias cuidando do jardim.
O que observar: o contraste entre a delicadeza com as plantas e os crimes do passado, a memória do colonialismo e da escravidão e a pergunta que o livro deixa: é possível paz sem arrependimento?
Temas que ligam as nove obras
- Voz feminina: quem narra, quem fala e quem é silenciado.
- Educação e trabalho: de Nísia Floresta a Martha, estudar aparece como forma de liberdade.
- Raça, escravidão e colonialismo: forte em Conceição Evaristo, Paulina Chiziane e Djaimilia Pereira de Almeida.
- Política e repressão: central em Caminho de pedras.
- Forma literária: a lista mistura ensaio, poesia, romance e novela. Saber o gênero de cada obra já ajuda a responder muitas questões.
Plano de estudo em 4 passos
- Comece pelas curtas: A visão das plantas, Memórias de Martha e os livros de poemas podem ser lidos em pedaços, nos intervalos.
- Faça uma ficha por obra: autora, ano, país, gênero, narrador, três temas e duas citações curtas. Se não sabe como, veja como fazer resenha de livro, que serve também para fichamento.
- Agrupe por temas: monte um quadro comparando as obras pelos temas acima. A 2ª fase adora pedir relações entre livros.
- Treine com provas antigas: o site da FUVEST tem provas anteriores. Mesmo com livros diferentes, o estilo das perguntas se repete.
Resumo ajuda a revisar, mas não substitui a leitura. A banca percebe quem só leu sobre o livro.
E depois de 2027?
A lista de 2028 mantém sete dessas obras e a de 2029 traz de volta autores homens, como Machado de Assis. Quem vai prestar mais adiante já pode começar pelo nosso resumo de Dom Casmurro. E se ler ainda é um desafio, comece por aqui: livros para quem não gosta de ler.
Professor ou professora: a lista rende ótimas discussões em grupo. Veja ideias em como montar um clube do livro na escola.
